Títulos dos capítulos:
Texto de orelha do livro, por Adnei Melges de Andrade1: O conceito de sistemas energéticos, num mundo cheio de incertezas quanto à possibilidade de satisfazer as exigências que o crescimento demográfico apresenta, é fundamental para a apreciação sinótica do problema do desenvolvimento limpo que tenha como meta difusa às necessidades da população atual e das gerações futuras. O desenvolvimento humano impõe pesadas cargas para o planeta no aproveitamento dos recursos e na assimilação dos resíduos. Sendo o atual sucesso da atividade econômica resultante do uso intensivo de grandes quantidades de energia de diversas fontes, de maneira mais ou menos independente, só recentemente surge a consciência de que, para alcançar o desenvolvimento sustentável, será necessária a avaliação da oferta de energia de um modo integrado, com a consideração simultânea de todas as fontes, de todos os usos, e de todas as possíveis conseqüências ambientais desses usos. Uma parte importante desta consciência é representada pela percepção de que o desenvolvimento sustentável, capaz de atender às nossas necessidades energéticas sem o risco de perda da capacidade de suportar a vida no nosso planeta, depende do uso de mecanismos de desenvolvimento limpo. Esta situação tanto poderia ser uma boa razão para desistir antes de tentar um objetivo tão complexo, quanto, no caso deste livro, uma oportunidade para lançar uma estrutura adequada que possa ser gradualmente ampliada até tornar-se uma base sólida para o suprimento das necessidades energéticas da humanidade, com a devida consideração de todos os seus custos, presentes e futuros. O Brasil está a caminho e em sintonia com a preocupação de um desenvolvimento limpo, com os exemplos importantes do álcool da biomassa e do biodiesel, a cogeração com o uso do bagaço de cana, a geração hidrelétrica, eólica e a fotovoltaica. No mesmo horizonte está o interesse no desenvolvimento da geração termelétrica com o uso do gás natural, devido a seus menores impactos sobre o ambiente, em substituição aos derivados do petróleo. Ao se adentrar na problemática inerente aos sistemas energéticos para o desenvolvimento limpo, percebe-se que não se está apenas buscando a preservação do meio ambiente ou a preocupação com o esgotamento dos recursos naturais ou ainda com a conservação da energia apenas por razão econômica mas, ao mesmo tempo, cumprindo o papel de formar o cidadão para sua participação na introdução de mecanismos para um desenvolvimento limpo. O pesquisador, o estudante, o cidadão, a sociedade como um todo, como atores que usufruem indiscriminadamente dos recursos naturais no planeta, não podem se furtar de sua responsabilidade social, tanto nos seus aspectos globais como locais, subjetivos e objetivos. 1Adnei Melges de Andrade Prefácio, por Ildo Luís Sauer2: O grande desafio enfrentado pela Humanidade em nossos dias consiste em construir um modelo de desenvolvimento energético sustentável, de forma a assegurar os direitos das gerações presente e futuras, no que tange às oportunidades de crescimento econômico e qualidade de vida. Um breve resgate histórico leva a constatar que há cerca de apenas 300 anos o Homem vivia em condições extremamente distintas. Uma transformação indelével se deu, nas relações de produção e sociais, a partir da I Revolução Industrial, em meados do século XVIII. Essa foi propiciada pela descoberta de novos mecanismos e instrumentos de conversão energética e calcada no uso do carvão. A substituição gradativa daquela por outras fontes, como o petróleo e o gás natural levou a uma nova reorganização de âmbito global, concomitante com a II Revolução Industrial, um século depois. Desenvolveu-se, então, toda uma gama de indústrias, voltadas para a produção e o suprimento da energia - máquinas diversas, turbinas, sistemas de transmissão - por um lado. Por outro, sua utilização: equipamentos de uso industrial e doméstico, iluminação, força motriz, climatização e comunicação. Ou seja, um conjunto de instrumentos que alteraram de forma profunda o ritmo e o curso dos processos de formação sócio-espacial e econômica das sociedades no planeta, moldando as características de urbanização e industrialização e configurando uma nova divisão internacional do trabalho. Nos últimos 30 anos, contudo, a problemática que se impõe assume outras características. E a face dos novos desafios começou a delinear-se, acentuadamente, em função das crises do petróleo ocorridas, respectivamente, em 1973 e 1979. No Brasil, por exemplo, parte da resposta se deu, entre outros ajustes estruturais, através da implantação dos programas Nuclear Brasileiro e Nacional do Álcool, e de Uso Racional dos Derivados de Petróleo, como meio de enfrentar a necessidade de sustentação econômica do país e a súbita escassez do energético mais essencial. Na mesma época, internacionalmente, assistia-se ao surgimento de uma “economia ambiental”, como conseqüência da inquietação global quanto à sustentabilidade dos sistemas de produção vigentes. Pelo prisma do crescimento econômico, formularam-se conceitos como Integrated Resources Planning e Demand Side Management, voltados para o planejamento e uso racional dos recursos, que ainda hoje constituem recursos de gestão e expansão de sistemas energéticos, como alternativa ao paradigma oferta crescente para consumos crescentes, meramente demográfico. Do ponto de vista ecológico, desastres ambientais fatais como Meuse (1930 – siderurgia), Berkeley CA (1949 – poluição veicular), Londres (1952 – fog do Tâmisa), Minamata (1956 – despejos industriais), Three Mile Island (1979 - acidente nuclear), Bhopal (1984 – gases tóxicos); as conseqüências locais, regionais (chuva ácida, camada de ozônio) e globais (aumento da temperatura) do uso intensivo de combustíveis fósseis e o pensamento inaugurado pelo Clube de Roma (guardando a devida reserva quanto às suas explícitas limitações) e prosseguido com a Conferência de Estocolmo e a ECO 92, conduziram a conclusões similares, de que o padrão de produção e consumo vigente, incluindo o atendimento às necessidades energéticas, não era compatível com uma perspectiva de sustentabilidade intergeracional e nem mesmo de equidade, em âmbito mundial, no presente. Desse contexto resultou, por um lado, a valorização das fontes de energia renováveis e menos poluidoras, bem como emergiram, posteriormente, os instrumentos de prevenção e mitigação das externalidades ambientais negativas, sobretudo da mudança climática, conhecidos como flexibility mechanisms, entre os quais se incluem os mecanismos de desenvolvimento limpo. Para a adoção de tais mecanismos, a promoção e o desenvolvimento de novos modelos energéticos, tanto na produção quanto no uso, torna-se preponderante. Nesse sentido, a preocupação primordial desse livro encontra-se em convergência com o momento atual, isto é, da necessidade de formar conceitos e estruturar a sociedade, ou pelo menos alguns indivíduos, para um renovado debate. Debate esse que incorpore, já em seus fundamentos, uma outra visão de mundo, mais solidária e mais responsável, extrapolando as expectativas meramente mercantis, cujos apelos são, por vezes, tão sedutores. Iniciação a conceitos de sistemas energéticos para um desenvolvimento limpo é leitura imprescindível para aqueles que almejam aprofundar-se nesse tema, fornecendo as ferramentas básicas a partir das quais novos questionamentos surgirão, levando, por fim, a um novo olhar e a uma nova capacidade analítica. 2Ildo Luís Sauer |